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Como é avaliada a alergenicidade das culturas biotecnológicas?

As culturas Geneticamente Modificadas (GM) por meio de biotecnologia moderna passam por avaliações de segurança alimentar e ambiental antes da sua comercialização. Um dos aspectos considerados é o potencial alergênico.

As culturas Geneticamente Modificadas (GM) por meio de biotecnologia moderna passam por avaliações de segurança alimentar e ambiental antes da sua comercialização, sendo o potencial alergênico um dos aspectos considerados para avaliação de sua segurança para saúde humana e animal. A avaliação de alergenicidade inclui a avaliação da composição nutricional e de antinutrientes da planta GM, bem como a proteína que está sendo expressa a partir do gene introduzido ou modificado.

O potencial alergênico da cultura GM é avaliado sob dois aspectos: (i) se o processo de modificação gênica teve um efeito não intencional nos níveis de proteínas alergênicas já presentes na cultura não GM e (ii) se as proteínas introduzidas em culturas GM possuem potencial alergênico. Das 9 culturas GM disponíveis comercialmente nos Estados Unidos, a soja é a única cultura que também é 1 dos 8 alimentos responsáveis por 90% dos casos de alergia alimentar. Os outros 7 alimentos são trigo, leite, amendoim, nozes, frutos do mar (marisco), peixe e ovo. Antecipando a possibilidade de efeitos indesejáveis, desde o início das culturas GM existem critérios de segurança quanto à possível produção de alérgenos. Desde 1992, mais de 1.300 avaliações foram realizadas por agências regulatórias em todo o mundo, avaliando os dados de segurança de várias culturas GM, concluindo em cada caso que a segurança das culturas GM era equivalente à das culturas convencionais.

O potencial alergênico das proteínas introduzidas em culturas GM é avaliado usando uma abordagem baseada no peso da evidência que inclui as seguintes questões:

  • O gene vem de um alimento comumente alergênico? Por exemplo, genes de microrganismos ou culturas como milho ou arroz apresentam baixo risco de codificar uma proteína com potencial alergênico, pois as alergias a eles são raras.
  • A sequência de aminoácidos da proteína expressa é semelhante à das proteínas alergênicas já conhecidas? Para responder a essa pergunta, ferramentas de bioinformática são utilizadas, pois comparam a sequência de aminoácidos com todos os alérgenos humanos conhecidos e disponíveis em uma base de dados.
  • A proteína expressa é abundante na cultura GM? As proteínas alergênicas geralmente estão presentes em altas concentrações nos alimentos. Estudos de suscetibilidade foram realizados em humanos para avaliar o potencial alergênico de novas proteínas em indivíduos com alergia e nenhuma evidência de uma resposta imune às proteínas expressas foi encontrada.
  • A proteína expressa é resistente à digestão com pepsina ou fluidos gástrico e intestinal simulados? As proteínas que são mais suscetíveis à digestão têm menor probabilidade de serem alergênicas, pois limitam a exposição do sistema imunológico intestinal a peptídeos intactos suficientes para desencadear reações alergênicas. Esses dados são exigidos pelas diretrizes do Codex e pela maioria das autoridades regulatórias como parte da análise de peso da evidência.

Relação entre OGM e alergia: uma revisão sistemática

Em 2017, os profissionais da Bayer realizaram uma revisão da literatura atual sobre o tema, onde 83 artigos foram analisados, de um conjunto inicial de 4.399. Os dados disponíveis mostraram que as culturas GM não são mais alergênicas do que as suas equivalentes convencionais. 

Os autores também investigaram se o uso de Organismos Geneticamente Modificados (OGMs) está associado ao desenvolvimento de doenças alérgicas. Nesse sentido, o comitê da National Academy of Sciences, Medicine, and Engineering (NASEM) comparou o aumento da prevalência desse tipo de doença em países com maior ou menor consumo de OGM, e nenhuma relação foi encontrada entre o consumo de alimentos GM e o aumento de alergias alimentares.

“Nos relatórios de biossegurança dos OGMs são fornecidas as informações requeridas pela agência regulatória para avaliação da segurança das proteínas expressas.”

— Marcela Joaquim, Biotech Dossier & PMM Brasil

Bibliografia

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  • National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine. (2016). Genetically engineered crops: experiences and prospects. National Academies Press. 

Links de interesse

  • Entrevista com a Dra. Antonella Cianferoni, do Hospital Infantil da Filadélfia (EUA), na Infoalimentos 
  • Entrevista com o Dr. Lars Poulsen, da Universidade de Copenhague, membro do Grupo de Trabalho de Alergênicos Alimentares do Instituto de Ciências da Saúde e Meio Ambiente (HESI), na Infoalimentos
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